somos 4 em casa, eu, minha irmã mais nova, minha mãe e minha avó. moramos na mesma casa desde que minha mãe nasceu, e desde a infância da minha vó, uma casa simples bem perto da floresta de Tainã, cercada de uma mata alta e ainda por cima a maioria das estradas são de terra… o acesso é um pouco complicado. as idas pra escola sempre foram um inferno.
todos conhecem as histórias da floresta Tainã, a floresta que brilha, como costumam chamar. nós em casa, sempre tentamos ignorar e lidar com as estranhezas que nos cercam, barulhos estranhos vindo do meio da mata, ventos que parecem uma respiração profunda e antiga, outros parecem melodias macabras, vultos no meio da escuridão, barulho de galhos quebrando no chão, pontos luminosos parecidos com olhos de gato no meio da noite…
minha mãe sempre se esforçou pra desmistificar essas histórias, dizendo que eram animais ou coisas da nossa cabeça, mas é impossível negar oq vemos na floresta.
e agora chegamos na parte esquisita (mais ainda rs) da história. como deu pra perceber, não temos homens na família, mas nem sempre foi assim. eu nunca conheci meu avô, mas minha vó sempre falou muito dele, indo contra oq minha mãe dizia, que sempre quis esquecer essa parte da vida delas. a vó dizia como ele sempre foi um homem bruto, sem sensibilidade ou delicadezas, chucro mesmo. trabalhou com as próprias mãos a vida toda, o bicho era casca grossa.
até que na chegada do 8º mês de gestação da minha vó, grávida da minha mãe, a personalidade do meu vô mudou completamente, de um dia pro outro ele deixou sua casca, sua brutalidade e indelicadeza pra trás e se tornou um novo homem, fazendo arranjos de flores, cartas de amor, cafés da manhã na cama, começou a ajudar nas tarefas de casa além de trabalhar todos os dias… parecia um sonho como dizia minha vó.
porém ela conhecia ele melhor do que ninguém, e sabia que algo de estranho estava acontecendo. junto dessa mudança repentina de personalidade, alguns comportamentos estranhos foram surgindo… além dos novos costumes amorosos, o bom humor dele por vezes era intoxicante e até perturbador, como se não fosse algo natural, mas sim uma ideia plantada na sua cabeça; outras vezes ele voltava do trabalho molhado, corpo, cabelo, roupas, tudo. quando minha vó questionava, ele desviava o assunto ou dava uma desculpa, e devido aos agrados sem fim, ela deixava passar.
com o passar do tempo algo bizarro começou a se tornar comum na rotina dela, as vezes minha vó acordava de madrugada e meu vô simplesmente não estava na casa, por vezes ela fingia dormir quando escutava ele voltar, e apenas ouvia seu corpo molhado pingando no chão de casa. o pior dos casos foi quando ela, procurando por ele, saiu de casa (deixando minha mãe ainda com meses de idade sozinha no quarto) e se enfiou no meio no breu absoluto da mata fechada, depois de alguns minutos encontrou meu avô completamente nu e com seu corpo encharcado, conversando com um bambuzal.
minha vó cobrou explicações, mas ele, mais uma vez, com uma serenidade e paz em suas palavras e expressões, desviou e fugiu do assunto. mais tarde naquele mesmo dia, quando voltou do trabalho, meu avô se sentou na poltrona, e finalmente parecia que ia se abrir sobre o que estava acontecendo, mas segundo minha vó, parecia que algo impedia ele, e apenas palavras e descrições vagas foram ditas. ele dizia algo sobre “uma beleza infinita”, “verdades sussurradas entre a vegetação”, “um chamado vindo do fundo”, sobre encontros que iluminaram sua mente, que trouxeram respostas maiores do que poderíamos entender. minha vó dizia que suas palavras eram de um homem louco, mas seu comportamento era sóbrio e estável… e isso era o que mais assustava ela.
sem conseguir tira nenhuma resposta ou conclusão clara, mais uma vez meu vô finalizou a conversa desviando e fugindo de mais detalhes, e foram deitar pra dormir pouco tempo depois. minha vó acordou no dia seguinte sozinha na cama, como havia se tornada comum nos últimos meses, porém, dessa vez ele nunca mais voltou. buscas foram feitas pela polícia, mas absolutamente nenhum rastro foi encontrado.
a partir daí, agora sozinha com a minha mãe ainda bebê, minha vó aprendeu a viver com as estranhezas de sua realidade, e passou a respeitar a floresta de certa maneira… tratando ela como algo vivo, mas nunca com medo, ou rancor, apenas respeitando sua natureza e seus mistérios. minha mãe, por outro lado, criou um certo ressentimento, e parece nunca ter aceitado essa história totalmente, sempre negando qualquer tipo de anormalidade nas matas ao nosso redor.
eu acredito que tenha algo a ver com meu pai, que eu nunca conheci, e que nos deixou quando eu era ainda um bebê… minha mãe nunca fala dele, e sempre se recusou a explicar qualquer coisa, minha vó sempre respeitou esse desejo dela de me manter no escuro, por mais que eu suspeite de muitas coisas, não tenho ideia do que aconteceu com ele… um dia ela disse que ele fugiu com outra mulher, mas eu nunca acreditei… acho que a mata tem certo gosto por homens brutos. e essa é minha vida e história morando nos vales da Floresta Tainã.
tomei coragem e entrei na mata. depois da minha vida inteira escutando histórias e morrendo de medo, eu finalmente entrei.
na verdade, não entrei só uma vez, mas duas. uma de manhã, e não encontrei nem presenciei nada de estranho. mas ontem fui de noite, e vi… vi coisas que eu não sei se consigo descrever… acho que encontrei o bambuzal que minha vó falou… ele parecia, de alguma maneira, vivo, parecia respirar… parecia me chamar.
conforme eu fui me aproximando senti uma vibração tomar conta do meu corpo, nunca senti nada assim. os bambus estalavam e respiravam, como se houvesse ossos e carne ao invés de cana dentro deles… nunca senti tanto medo na vida, mas ao mesmo tempo, tanto… prazer, felicidade… tinha algo me puxando pra cada vez mais fundo… mas eu resisti.
peguei a câmera e tentei registrar alguma coisa, mas não sei se deu certo, o som do vídeo deu problema por alguma razão que não sei explicar.
depois disso parece ter algo me chamando de volta pra lá… mas eu não posso. não posso ir. não devo. tenho guardado dinheiro minha vida toda pra sair dessa cidade, e agora é o momento pra isso. empacotei minhas coisas e essa semana ainda vou embora. obrigada a todos por serem esse suporte aqui no site, vcs salvaram muitas das minhas noite sozinhas. boa sorte nessa cidade maldita.